quarta-feira, 27 de abril de 2011

Música

"O que é música?"
Um rapaz perguntou-me isso hoje.
Abaixei-me para que os nossos rostos ficassem ao mesmo nível. E então, com um grande sorriso eu perguntei-lhe.
"O que é que te importa? Está tanta gente na rua, porque é que és tu que te importas?"
Ele olhou para mim, com os olhos demasiado pensativos para a sua idade, e respondeu.
"Porque eu quero fazer boa música."
Sorri, e deixei-o saber que tinha gostado da sua resposta.
Ele ficou feliz e retribuiu-me, de imediato, o sorriso.
"Dá-me a mão." Disse-lhe. "Anda comigo, e eu vou-te mostrar coisas que fazem a própria música."
Ele colocou a sua pequena mão na minha e começamos o caminho.
Naquele momento não sabia o que fazer, ele confiava em mim..
Mas fomos caminhando, até que eu comecei a enumerar algumas coisas que contribuem para o nascimento da música.
"Música..." Disse-lhe. "...é a harmonia no mundo, reunida para criar uma infinidade de sensações. A música é os nossos passos no chão. A música é o meu caminhar contigo. A música é aquele casal antigo, vê como são idosos mas, vês como eles se olham nos olhos com imenso amor? Não gostavas de crescer e ser como eles? Seres a tua própria música?"
"Sim." Disse ele. "Eu gostava de ser a minha própria música."
Eu pensei e disse que isso era bom.
"Música..." Continuei. "...é o coerência fonética, entre um começo e um fim, definido como 'aquele que faria'. A música é o trânsito de madrugada. A música é o vento soprando nas árvores, de noite. A música pode soar ao que tu quiseres. Nós estamos em todo o lado, rodeados por música."
O rapaz olhou para mim, de maneira estranha mas amável.
E perguntou com um suspiro. "Tudo o que eu quiser?"
"Tudo o que tu quiseres." Respondi. "Música é uma mistura de sons para dar forma a algo novo, quer seja lindo ou horrível. Música, é um sem abrigo a ganhar tostões apenas pela sua guitarra. Música é os suspiros e gemidos dos que fazem amor. Música é o ritmo agradável de uma bem conhecida sinfonia. Pode até ser formada por vozes humanas, que agradam aos ouvidos ou perturbam a mente, mas isso depende."
O rapaz puxou a manga do meu casaco naquele momento. Ele acenou e eu obedientemente caí sobre um joelho. Olhou-me solenemente, com um cálculo adulto. E, finalmente perguntou. "Será que isto é música? Os gritos de vozes enfurecidas dos bêbados da casa ao lado? Um gato a 'gritar' no calor? O som de uma garrafa de cerveja a ser partida? Ser atingido por todos os lados até não me poder mexer, ou simplesmente, ser tocado onde me sinto violado? As conversas das prostitutas da rua, ou os suspiros que deixam saber quando a droga entra no corpo?"
Olhei novamente, com atenção, para este pequeno rapaz. E pela primeira vez vi as cicatrizes e os hematomas. Que este pequeno músico tinha pelo seu corpo. Ele tinha vivido uma vida curta mas difícil, era fácil de ver. Nesse momento senti muita pena pelo meu novo amigo.
No entanto, os seus olhos olhando para trás com orgulho, desafiaram-me a falar.
Eu pensei por um momento, de seguida peguei na sua mão pálida e respondi.
"Sim, isso também é música."

That's All

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Assombra-me

E eu aqui a pensar que a dor subside, vendo o seu caixão baixando, com o desvanecimento das minhas cicatrizes, mas não...
Ele só entrou em hibernação, esperando, sonolento, com emoção pelo momento em que vi o seu rosto nas fotografias, para persuadir as lágrimas que vêm por de trás dos meus olhos.
Como pode ser um sorriso tão sem vida?
Como pode ser o mar tão calmo durante uma tempestade?
Dizer que a culpa não é minha, seria a pior mentira.
O verde que travou tão fortemente o meu azul, nunca foi tão cego.
Quase que consigo ouvi-lo chorar debaixo dos meu pés.
Arranhando a madeira para a fazer desabar.
Desesperadamente, tentando dizer-me que ele não me deixou. Pelo menos não de propósito.
E nada vai bloquear o som.
Dia e noite, ele implora o meu entendimento, o meu perdão.
Mas não há nada a perdoar.
Talvez, porque eu nunca o amei, para começar.
Talvez fosse uma ilusão que se plantou em mim. Quando eu vi a tristeza, o anseio nos seus olhos..
Talvez, tudo o que eu queria, era que ele fosse feliz. Mesmo que isso significa-se que eu teria de mentir.
Então eu devo pedir desculpa.
Perdoa-me por favor.
Porque eu não me importo que tenhas partido.
Culpa é o que aperta os meus pulmões.
E arrependimento é o que faz as lágrimas chegar..

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Passagem de um sonho


Havia algo na minha cabeça, uma vez, um sonho que eu acho que se chamava Ele. Ele estava ferido, pendurado num dos cantos da minha mente, por um fio.
Perguntei-lhe porque e como é que ele tinha chegado, e ele disse-me que era o produto do mundo imaginário de criança, o mais simples dos sentimentos, felicidade e amor. A sensação de liberdade que decorre ao ser jovem.

"Lembras-te de mim?" Perguntou ele. "Foste tu que me crias-te. A única a dar vida a uma fantasia flutuante e deixá-la criar raízes". Quando eu disse que eu não me conseguia lembrar, de quando ele nasceu, que estava num lugar e tempo esquecido de mim, parecia ainda mais fraco, encolhendo-se em si mesmo como a sua aderência solta. "Tu perguntaste-me como é que eu vim aqui parar. Foi apenas por uma razão. Uma vez eu venci, brilhante e ousado, alimentado por confiança e fé... a tua. Mas desvaneceram e diminuíram. Como começas-te a ver o mundo real, vies-te a saber o que é estar vivo, afastaste-te de mim, em desespero, acreditando que perder tempo com o improvável era para desperdiça-lo completamente. Em vez disso, contentaste-te em simplesmente sobreviver. Desistis-te dos teus sonhos de teres um emprego estável, um rendimento estável. Para teres um tecto sobre a tua cabeça e comida na mesa. Tu perdes-te pedaços de ti ao longo do caminho e eu sou o último, agarrado à borda, na esperança de algo vir a mudar ".
Isso chocou-me, esta resposta, na sua verdade flagrante. Por muito tempo eu tinha-me dito que como eu estava a viver era como a vida era para ser. Lenta, constante e segura. Eu tinha pensado que era uma coisa boa. E ainda mesmo que agora eu podia ver que isso não era verdade, que minha vida estava estagnada na sua simplicidade, eu sabia que não poderia fazer-me mudar, por medo do que aconteceria se eu tentasse. Mesmo quando eu percebi isso, o meu sonho cintilou melancolicamente, reconhecendo a minha decisão. 
A minha cobardia.
"Está tudo bem". Acalmou. "Eu entendo. Não precisas de te sentir culpada. O mundo em teu redor é um lugar cruel, implacável. É melhor, talvez, que sejas capaz de suportar, do que arriscar tudo o que sabes ser um desejo infantil." Enquanto eu o segurava perto de mim, oferecendo o pouco que pude para facilitar a sua passagem, o brilho suave finalmente saiu.
Desmaiou nos meus braços e, em seguida, desfez-se em pó, deslizando através dos meus dedos, levando com ele o resto do que-poderia-ter-acontecido.
Testemunho da passagem de um sonho.


That's All.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Quando tudo parece bem.

Vou começar este texto dizendo que quando tudo parece bem, é aí que devem fugir, pois é sinal que vai haver merda.
Com a maior parte das pessoas é assim, e passo a dar o exemplo do Japão. Está tudo muito lindo e tal, com os japonas a fazerem anúncios com o Schwarzenegger a fazer DIVERSAS coisas ridículas! (até deixo aqui dois links: http://www.youtube.com/watch?v=hg8rSLfwK_g  //  http://www.youtube.com/watch?v=jcfI0gf9oDc ) Quando derepente, assim do nada, PUMBAA o Japão é atingido por um tsunami que dá cabo de uma estação nuclear e fica tudo fodido para o lado deles. Mas no entanto também existem pessoas que funcionam ao contrário, ou seja, se parecer estar tudo bem, é porque está mesmo. Se não parecer, é porque não está mesmo. Até podia dar um exemplo, mas não me apetece. Portanto xau aí.


P.S. Eu sou pessoa de criticar coisas que as outras pessoas fazem, quando não entendo porque é que o fazem. Bem, hoje entendi porque é que algumas pessoas fazem uma determinada coisa, e compreendo, perfeitamente até. E se eu revela-se o que é esta coisa, muita gente ia ser como eu, e ia criticar. No entanto é o que mais me apetece fazer neste momento, mas não o vou fazer, não o acho correcto, apenas vou ter de aguentar, como sempre fiz e sempre farei.

That's All.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Secalhar, sou uma metáfora.

É como se tivesse 6 anos outra vez, com os dedos embrulhados na mão de outra pessoa. É como se me tivesse perdido e nem me importa-se se fosse encontrada. Lá fora está muita luz e o sol provoca-me desconforto, inflamando os meus ossos sob a pele. É como se eu estivesse a dormir no passeio e estivesse deixando rasto de encontro com a minha cara e as palmas das minhas mãos. Mas, de manhã, não vai importar, visto que o mundo está em chamas. E tudo o que eu sou é um sopro que não consegue apagar o fogo. Ou uma nuvem de chuva, sem o revestimento de prata que vai derramar toda a preocupação para longe.
É como se eu tivesse dezasseis anos outra vez, apertando os dedos contra outra garrafa de vidro ou contra o lavatório. É como se me tivesse afogado no passado e soubesse que não ia ser salva. Esta escuro no quarto e eu estou a respirar muito alto pela minha boca visto que não consigo esconder a ansiedade atrás dos meus lábios. É como se eu estivesse ajoelhada no chão da casa de banho a convencer-me acreditar, para que eu possa fingir que esta doença é mais como rezar. Mas daqui a uma semana não vai importar, visto que estou a sangrar por dentro, mesmo sem o saber. Tudo o que sou é uma raça em extinção com sílabas de overdose que soam a arrependimento. Ou uma rapariga a arder que não consegue ficar bêbada o suficiente para esquecer.
É como se eu fosse muito nova, com os meus dedos segurando os lados das minhas costelas para me manter no lugar. É como se eu tivesse saído pela porta e alguém atrás de mim a tivesse batido, como sinal que não poderia voltar. Tem chovido durante semanas e eu finalmente sinto que talvez me possa limpar. É como se eu estivesse em pé no meio da rua com gotas de água no cabelo e nas pestanas. E vai importar cada vez que eu pestanejar, visto que estou presa na corrente. eu sou um rio. Eu estou a mudar. Até que tudo o que eu sou é o vidro do mar sobre a costa ou o rebentar das ondas brilhantes na areia. Tudo o que eu sou é uma segunda oportunidade para fazer algo maravilhoso. Para ser algo maravilhoso.
É como se eu me tivesse finalmente apercebido que tenho vivido no passado e não tenho vivido de todo.

P.S. Isto é uma história inventada, nada disto é real.