"O que é música?"
Um rapaz perguntou-me isso hoje.
Abaixei-me para que os nossos rostos ficassem ao mesmo nível. E então, com um grande sorriso eu perguntei-lhe.
"O que é que te importa? Está tanta gente na rua, porque é que és tu que te importas?"Ele olhou para mim, com os olhos demasiado pensativos para a sua idade, e respondeu.
"Porque eu quero fazer boa música."
Sorri, e deixei-o saber que tinha gostado da sua resposta.
Ele ficou feliz e retribuiu-me, de imediato, o sorriso.
"Dá-me a mão." Disse-lhe. "Anda comigo, e eu vou-te mostrar coisas que fazem a própria música."
Ele colocou a sua pequena mão na minha e começamos o caminho.
Naquele momento não sabia o que fazer, ele confiava em mim..
Mas fomos caminhando, até que eu comecei a enumerar algumas coisas que contribuem para o nascimento da música.
"Música..." Disse-lhe. "...é a harmonia no mundo, reunida para criar uma infinidade de sensações. A música é os nossos passos no chão. A música é o meu caminhar contigo. A música é aquele casal antigo, vê como são idosos mas, vês como eles se olham nos olhos com imenso amor? Não gostavas de crescer e ser como eles? Seres a tua própria música?"
"Sim." Disse ele. "Eu gostava de ser a minha própria música."
Eu pensei e disse que isso era bom.
"Música..." Continuei. "...é o coerência fonética, entre um começo e um fim, definido como 'aquele que faria'. A música é o trânsito de madrugada. A música é o vento soprando nas árvores, de noite. A música pode soar ao que tu quiseres. Nós estamos em todo o lado, rodeados por música."
O rapaz olhou para mim, de maneira estranha mas amável.E perguntou com um suspiro. "Tudo o que eu quiser?"
"Tudo o que tu quiseres." Respondi. "Música é uma mistura de sons para dar forma a algo novo, quer seja lindo ou horrível. Música, é um sem abrigo a ganhar tostões apenas pela sua guitarra. Música é os suspiros e gemidos dos que fazem amor. Música é o ritmo agradável de uma bem conhecida sinfonia. Pode até ser formada por vozes humanas, que agradam aos ouvidos ou perturbam a mente, mas isso depende."
O rapaz puxou a manga do meu casaco naquele momento. Ele acenou e eu obedientemente caí sobre um joelho. Olhou-me solenemente, com um cálculo adulto. E, finalmente perguntou. "Será que isto é música? Os gritos de vozes enfurecidas dos bêbados da casa ao lado? Um gato a 'gritar' no calor? O som de uma garrafa de cerveja a ser partida? Ser atingido por todos os lados até não me poder mexer, ou simplesmente, ser tocado onde me sinto violado? As conversas das prostitutas da rua, ou os suspiros que deixam saber quando a droga entra no corpo?"
Olhei novamente, com atenção, para este pequeno rapaz. E pela primeira vez vi as cicatrizes e os hematomas. Que este pequeno músico tinha pelo seu corpo. Ele tinha vivido uma vida curta mas difícil, era fácil de ver. Nesse momento senti muita pena pelo meu novo amigo.
No entanto, os seus olhos olhando para trás com orgulho, desafiaram-me a falar.
Eu pensei por um momento, de seguida peguei na sua mão pálida e respondi.
"Sim, isso também é música."




